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terça-feira, 14 de maio de 2013

Vidas Amargas, 1955, Elia Kazan



Vidas Amargas
★★★★Estados Unidos da América, 1955, cor, 115 min.
Elia Kazan


Vidas Amargas, com direção de Elia Kazan e baseado no bestseller 'A Leste do Éden' do escritor americano John Steinbeck 
é um dos maiores exemplos de romances transformados em grandes obras cinematográficas. Além disso, a obra é a primeira da tríade inesquecível de filmes que criaram o legado de James Dean no cinema e a primeira indicação póstuma ao Oscar. James Dean brilha como uma verdadeira estrela nessa obra, um dos três filmes que teve papel de destaque antes de morrer apenas com 24 anos. 

O título e o enredo do filme fazem referência a uma das histórias mais antigas do mundo encontrada no livro do Gênesis, se trata da história de Caim e Abel onde Caim mata o irmão Abel e é exilado em uma terra ao 'leste do paraíso. Na primorosa adaptação de Elia Kazan para o livro de John Steinbeck podemos encontrar diversos elementos similares na história, mas de certa forma mudando a história da bíblia, já que não é uma história de 'bem e mal'.


O filme se passa no início do envolvimento dos Estados Unidos na primeira guerra, no vale de Salina, em Monterey, na Califórnia e mostra a disputa do jovem Cal Trask (James Dean) com seu irmão Aaron (Richard Davalos), pelo amor do pai, Adam Trask (Raymond Massey), fazendeiro e colhedor de alfaces. Os dois cresceram sem a mãe, acreditando na história contata pelo pai de que a mãe morrera, entretando Cal descobre que a mãe está viva. Mas a história centra-se apenas na briga entre pais e filhos, diferente do livro que decorre gerações de duas famílias da Guerra Cívil à Primeira Guerra Mundial. Kazan excluiu boa parte da obra para gerar maior dramaticidade demonstrando uma época onde a adaptação não significava necessariamente contar a exata história original.

Os irmãos, além de disputarem o afeto do pai, disputam também o amor de Abra (Julie Harris), que oficialmente é a namorada de Aaron, mas prefere o jovem e misterioso Cal. O pai, católico fervoroso, tem Aaron como o filho bom e Cal como filho mal, já que este lhe representa a imagem da mãe, mulher que abandonou a família para se livrar de uma vida limitada nas mãos do marido em um sítio, para ganhar a vida no próprio negócio, um prostíbulo em Monterey, próximo de Salinas, onde o rancho se localiza. Lembrando que tudo isso ocorre em uma América rural de 1917. Não por simples coincidência, os nomes dos personagens são semelhantes aos personagens bíbicos de Adão e seus filhos Caim e Abel. Cal, assim como Caim na bíblia é consumido pelo ciúmes devido a preferência do pai pelo filho exemplo, mas ele também é guiado pelo desejo de melhorar a vida da família e enfrentar a verdade que seu pai e seu irmão tem medo de encarar. 


Apesar de profundo e frequentemente teatral, é nítida a habilidade do diretor Elia Kazan como cineasta. As composições de Kazan são tão significativas quanto as atuações. É possível dizer que no livro de Steinbeck, Kazan encontrou reflexos de sua própria relação conturbada com o pai, ajudando a dar ao filme grande intensidade. Diferente do que há na bíblia, baseada em concepções religiosas e em idéias fixas sobre o bem e o mal, Vidas Amargas propõe uma ação psicológica das complexas relações humanas, onde as pessoas e as histórias podem mudar.


 A estréia de Vidas Amargas em março de 1955 no Astor de Nova York
















terça-feira, 7 de maio de 2013

Mala Noche, 1985, Gus Van Sant



Mala Noche
★★★★
Estados Unidos da América, 1985, 16mm, pb, 75min
Gus Van Sant

O filme de estréia de Gus Van Sant preescreveu alguns dos principais conceitos do cinema independente norte-americano, que sempre destacou a importância do roteiro e dos atores, deixando de lado outros aspectos importantes envolvidos na produção de um filme. Gus Van Sant trabalhou para uma agência de publicidade para conseguir financiar o filme e com 25 mil dólares, dirigiu o filme independente Mala Noche em 1985. Rodado em 16 mm e em p&b, o filme, baseado no livro de poe­mas de Walt Curtis é centrado na figura do jovem Walt Curtis (Tim Streeter) dono de uma mercearia decaída no subúrbio de Portland, Oregon, que se apaixona por Johnny (Doug Cooeyate), um imigrante mexicano clandestino.


O elenco formado por atores amadores, a iluminação precária e as imagens nem sempre impecáveis, não diminuem a qualidade do filme. Muito pelo contrário, o filme nos pega em cheio pela liberdade narrativa apresentada. Somos introduzidos ao filme com a frase 'If you fuck with the bull, you get the horn' que traduzindo para o português, literalmente, podemos interpretá-la como 'se você fode com o touro, você é chifrado', em seguida ouvimos o desabafo de Walt sobre a atração pelo jovem mexicano Johhny, que está sempre em companhia do seu amigo Roberto, também imigrante. Com isso, Gus Van Sant acompanha com maestria as tentativas de Walt em seduzir o rapaz, contudo a atração se torna um amor obsessivo não correspondido. Johnny, por sua vez, não é homosexual, mas é incapaz de frear seu admirador, foge de Walt durante o dia, mas a noite vai para a cama com ele. Trata-se de uma tensão sexual não resolvida que impulsiona as tentativas frustradas de Walt. Curiosamente, as únicas imagens coloridas do filme se dão quando Walt filma Johnny e seus amigos andando pelas ruas de Portland, ou seja, é no olhar do personagem sobre seus amigos que a vida tem cores.


É impressionante como os protagonistas portam-se à vontade diante da câmera, fortalecendo as aspirações e conflitos que carregam consigo: da obsessão, atração físisca à incomunicabilidade provocada pelas barreiras linguísticas e sociais, mas principalmente pela forma como cada um deles experimenta sua sexualidade. 
Voltando à frase inicial, pode-se concluir que Johnny é o touro e Walt o 'chifrado'. Este nunca terá seu desejo contemplado com reciprocidade. Um aspecto curioso focado pelo filme é que Van San não esconde as relações complexas que se desenrolam no convívio entre os personagens e o resultado das mesmas, ou seja, as inquietações, tristezas, alegrias, sofrimentos e desesperos provocados principalmente pelo personagem principal. Van Sant nos torna cúmplices de tais situações, entretando não nos induz soluções, assim como a complexibilidade do amor.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Documentário - Santiago, João Moreira Salles, 2007


Santiago (Santiago)
★★★★★
Brasil, 2007
João Moreira Sales


Em 1992, o cineasta João Moreira Salles, irmão de Walter Salles e filho do banqueiro e ex-ministro Walther Moreira Salles, empenhou-se em fazer um documentário sobre Santiago Badariotti Merlo, um mordomo, de origem italiana, dono de uma memória prodigiosa e vasta cultura que guardava nas lembranças o brilho das festas e recepções oferecidas pelo pai do realizador. Santiago trabalhou na casa da Gávea, a mansão de uma família muito rica e influente, onde o herdeiro dos Salles morou até os 20 anos e que hoje abriga o Instituto Moreira Salles, uma sede de referência para a fotografia e para a música no Rio de Janeiro.

O realizador percebeu a singularidade do homem já aposentado que viria a ser o personagem de seu filme em 1992. Santiago vive em um estreito apartamento do Leblon, no Rio de Janeiro, distante do esplendor dos luxuosos banquetes e grandes concertos que participara em um passado remoto. No seu humilde aposento leva uma vida solitária entre as 30 mil páginas que escreveu relatando os dramas e vidas de mais de 500 anos de nobrezas e dinastias de todo o mundo.

No mesmo ano, João Salles abandona o filme e só o retoma em 2005, entretanto, agora é ele quem se torna o protagonista. O filme é narrado em primeira pessoa, na voz do irmão, Fernando Moreira Salles e exibe todo o processo usado para fazer o filme em 1992. João explica detalhadamente como planejava construir o documentário apontando a câmera para Santiago e para a mansão onde o realizador cresceu. O documentarista descontruiu seu proprio documentário, revelando todos os cortes e desmascarando todos os seus mecanismos utilizados, sobretudo, como uma autocrítica do seu modo de conduzir o documentário década e meia atrás.

Em 2005, o resultado apresentado exprime a conscientização de um erro. Salles conseguiu retratar sua distância do antigo mordomo - ao que atribui suas inerentes posições de ex-patrão e ex-criado. O mordomo se apresenta como um personagem-objeto sempre ao fundo sendo constantemente manipulado no que dizer e como se posicionar. Toda essa errônea abordagem é explícita pelo diretor que usa o material completo que seria cortado na edição, os erros de Santiago durante as falas e  re-takes, enquanto a construção de seu material é questionada com a narração off feita pelo irmão, que indaga quanto à veracidade dos fatos que o documentário trás.

À vista disso, Santiago pouco se trata do ex-mordomo da família Salles. O documentarista trata do retrato de um erro, da consciência da perda de uma oportunidade única, já que não há mais como Salles reencontrar Santiago, que falecera logo depois das filmagens. Em 1992, quando teve a oportunidade, encarou-a com esteticismos e enquadramentos que quase perdiam Santiago ao fundo, não lhe dando a chance de expressar seus sentimentos e de ser ele mesmo na frente da câmera.

Santigo nunca foi o verdadeiro alvo da câmera, João Moreira Salles não procurava um personagem de seu passado para retratar, mas uma figura-chave que o guiasse para suas lembranças. O desejo de encontro com tudo que acontecera na casa da Gávea é buscado através do mordomo, um guia norteador que como ninguém, tinha vivo na memória um passado distante que jamais esquecera.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Memórias, 1980, Woody Allen


Memórias (Stardust Memories)
★★★★★
Reino Unido, 1980
Woody Allen
 
Criada a partir de 8½, a obra mais confessional de Woody Allen, Memórias desenvolve a história sobre um diretor à beira de um colapso nervoso, que em seus devaneios imagina variações para a sua complexa vida amorosa. É o filme mais maluco e imprevisível do cineasta, o que para alguns pode ser motivo para empurrar a obra ao segundo plano da filmografia de Woody Allen. O grande mestre das neuroses filmicas registra sob a fotografia admirável de Gordon Willis, um pouco de todas as preocupações do próprio diretor, lançando um olhar satírico e encarando o alto preço da fama.

A obra mais hermética de Allen não deixa espaço para simplificações habituais. Completamente desnorteada, incompleta e perturbada, esta obra menos conhecida do cineasta entretém e brinca com as suas origens, não dá atenção a narrativa cinematográfia, apresenta personagens que saem de cena sem mais nem menos e prova que a sétima arte não necessita de coerência, é um mundo de pura fantasia e ilusão imaginativa.


Não por mera coincidência em Memórias, Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com espanto a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Na vida real, decepcionado com a imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme dramático, o drama Interiores, Allen desenvolveu um roteiro ácido sobre a relação entre cineastas e jornalistas, assim como seu complexo relacionamento com o público. Um alienígena do espaço lhe diz "Nós gostamos dos seus filmes. Principalmente dos primeiros, os engraçados", e leva um tiro de uma fã perturbada. Sobre a noção de celebridade, Allen responde no livro de Eric Lax; 'Conversas com Woody Allen':
'Certo. Acontece uma porção de coisas estrangas quando você é uma celebridade. Quer dizerm não é que venha uma garota dizendo: "Me dá um autógrafo no meio seio esquerdo". Mas dizem: "Os russos estão prendendo pessoas em hospícios, você pode ajudar?". Ou: "Pode me ajudar com isto aqui?". E como eu já comentei com as pessoas, Memórias foi feito antes de matarem o John Lennon, porque eu senti que havia uma sensação ambivalente entre o público e a celebridade. O público adora os famosos, e por um lado é muito mais tolerante com os famosos do que eles merecem ou ganham. Por outro lado, o púlbico adora quando a celebridade é difamada, e se diverte dizendo: "Ah, você precisa ler o que fulano disse sobre esse filme. Crucificou o diretor". O púlbico tem um sentimento ambivalente, e era essa ambivalência que aquele cara maluco sentia pelo John Lennon, ou aquela pessoa louca sentia pela Jodie Foster. Eles mitificam a celebridade e são também perigosos.
 Memórias encanta desde a sequência inicial em um preto-e-branco pungente, claramente felliniana: um homem (Woody Allen) tenta  desesperadamente sair de um trem em movimento, impedido por um grupo de pessoas com fisionomias excêntricas. Partindo dessa cena, Allen brinca com as imagens e com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo melancólica e irônica. É impossível tentar evitar as comparações com a realidade vivida pelo diretor, assim como não rir com os diálogos mais inspirados de sua carreira. O filme harmoniza uma crítica ácida ao sistema a um humor dos mais inteligentes e engraçados da obra de Allen.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cinema, Fotografia e Susan Sotang



Coincidentemente estou iniciando a leitura de 'Sobre Fotografia' justamente no dia do fotógrafo. O livro de Susan Sotang, renomada escritora, critica de arte e ativista dos Estados Unidos, lançado originalmente em 1977, excede o campo da fotografia, dialoga com a filosofia e a sociologia, com a estética e a história da arte.
O que me chamou a atenção no primeiro capítulo intitulado 'Na Caverna de Platão'  - além, é claro, das definições impecáveis do que a significa fotografar, das diferentes significâncias da fotografia como um registro histórico cultural, político e social - são as citações de filmes correlacionados a fotografia e a ação de fotografar. Esbocei uma lista com todos os filmes citados no primeiro capítulo:

1963 - Les Carabiniers, pt Tempo de Guerra de Godard
Dois lúpen-camponeses preguiçosos são induzidos a ingressar no Exército do rei mediante a promessa de que poderão saquear, estuprar, matar ou fazer o que bem entenderem com os inimigos, e ficar ricos. Mas a mala com o butim que Michel-ange e Ulysse trazem, como triunfo, ´para casa, anos depois, para suas esposas, contém apenas centenas de cartões-postais de monumentos, de lojas de departamentos, de mamíferos, de maravilhas da natureza, de meios de transporte, de obras de arte e de outros tesouros catalogados de todo o mundo. O chiste de Godard parodia, nitidamente, a magia equívoca da imagem fotográfica. As fotos são, talvez,  os mais misteriosos objetos que compõem e adensam o ambiente que identificamos como moderno.

1966 - Si j'avais Quatre Dromadaires, pt Se eu Tivesse Quatro Dromedários de Chris Maker
O filme faz uma reflexão argutamente orquestrada sobre fotos de todos os tipos e temas, sugere um modo mais sutil e mais rigoroso de enfeixar (e ampliar) fotos. Tanto em ordem como o tempo exato para olhar cada foto são impostos; e há um ganho em termos de legibilidade visual e impacto emocional. Mas fotos transcritas em um filme deixam de ser objetos colecionáveis, como ainda são quando oferecidas em livros.

1929 - Um Homem com uma Câmera de Dziga Viértov
O filme oferece a imagem ideal do fotógrafo como alguém em perpétuo movimento, alguém que se desloca em um panorama de eventos díspares com tamanha agilidade e rapidez que qualquer intervenção está fora de questão.

1954 - Janela Indiscreta de Hitchcock
Janela Indiscreta oferece a imagem complementar: o fotórgafo representado por James Stewart tem uma relação intensificada com determinado evento, por meio de sua câmera, justamente porque está com a perna quebrada e confinado a uma cadeira de rodas, estar temporariamente imobilizado o impede de agir sobre aquilo que vê e torna ainda mais importante tirar fotos. Mesmo que incompatível com a intervenção, num sentido físico, usar uma câmera é ainda uma forma de participação

 1966 - Blow Up, pt Depois Daquele Beijo de Antonionni
Antonionni leva m fotógrafo de moda a rondar convulsivamente em torno do corpo de Veruchca, com a câmera a clicar. Maldade, de fato! Com efeito, usar uma câmera não é um modo muito bom de aproximar-se sexualmente de alguém.

1960 - A Tortura do Medo de Michael Powell
Existe uma fantasia sexual muito mais forte no extraordinário filme de Michael Powell, que não trata de um voyeur, como o título sugere, mas de um psicopata que mata mulheres com uma arma oculta em sua câmera, enquanto as fotografa. Ele não encosta nenhuma vez em seus temas.. Não deseja seus corpos; quer a presença delas na forma de imagem e filme -  as imagens que as mostram experimentando a própria morte - , que ele projeta numa tela, em casa, para seus prazer solitário. O filme supõe uma ligação entre importência e agressão, entre o olhar profissionalizado e a crueldade, que aponta para a fantasia central, ligada à câmera. A câmera como falo é, no máximo, uma débil variante da metáfora inevitável que todos empregam de modo desinibido. Por mais que seja nebulosa nossa coinciência dessa fantasia, ela é mencionada sem sutiliza toda vez que falamos em "carregar" e "mirar" a câmera, em "disparar" a foto.



 Leitura: Sobre Fotografia, Susan Sotang


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Cinema e Música - Jim Jarmusch


Precisei assistir poucos filmes do diretor independente norte-americano Jim Jarmush para perceber  que o cineasta tem alguma relação com o som. Descobri que além disso, é uma das cabeças pensantes do cinema mais ligadas com a música. O cineasta mergulhou na cena musical underground de Nova York no começo da década de 80. Jarmusch tocou teclado e cantou em uma banda baseada no *No Wave chamada The Del-Byzanteens e se apresentou em lugares como o **CBGB & OMFUG e o Mudd Club. Foi a estética dessa cena que o ajudou a dar o ponto de partida para fazer filmes, como ele mesmo recorda: “The aesthetics of that scene really gave me the courage to make films" [...] “It was not about virtuosity. It was about expression.”

Ao longo dos anos, Jarmusch preferiu escalar para seus filmes rostos inusitados de músicos como, Joe Strummer, Tom Waits, John Lurie, Iggy Pop, todos com algo em comum: todos estiveram contra a pressão comercial da cultura popular mainstream. A sequência de abertura do filme 'Down by Law', br: 'Vencidos pela Lei'  de 1986 se passa ao som da música de Tom Waits “Jockey Full of Bourbon". Não é preciso assistir o filme inteiro para notar que a música se encaixa perfeitamente na atmosfera da história:

Tom Waits - Jockey Full of Bourbon
"Waits’s songs tell of fractured romances set in an underworld of drifters, pimps, and prostitutes–to a large extent the milieu of the film. And both Jarmusch’s film and Waits’s songs recycle retro idioms. The visual style of Down by Law draws from a number of 1940s and 1950s studio genres, while Waits’s songs are replete with pastiches of polka, waltz, classic blues, and Caribbean rhythms." Jim Jarmusch.
Outro filme com parentesco musical é o 'Mystery Train', 'Trem Mistério' em português, de 1986. A música-tema é a que dá nome ao próprio título do filme, clássico do rei Elvis Presley. A trama, que tem a cidade de Memphis como pano de fundo, conta com Joe Strummer e os bluesman Screamin Jay Hawkins e Rufus Thomas no elenco.
Em 1995  Jarmusch escalou  Neil Young para compor e executar a trilha sonora do faroeste rodado em preto e branco 'Dead Man'. O músico, que já participou de outras produções com Jarmush, gravou uma melodia de forma minimalista e improvisada em um grande armazém em San Francisco enquanto assistia cortes do filme. Young tocou todos os instrumentos; violão, guitarra, orgão e piano. Em 1997 Jarmush produziu 'Year of The Horse' uma exelente referência musical sobre o músico canadense com entrevistas, imagens de bastidores das décadas de 70 e 80, além de cenas da turnê de 1996 do roqueiro.


Neil Young - Dead Man

As trilhas sonoras das produções de Jarmusch resultam de uma conexão entre todos os elementos que estruturam um filme,  conectando-se ao roteiro, a trama e até mesmo aos atores e ao diretor, pessoas comuns que amam a música.


A imagem acima é de 'Stranger Than Paradise', br: 'Estranhos no Paraíso' de 1984, onde a personagem é fã de Screaming Jay Hawkins e ouve 'I Put Spell on You' repetidamente. 

Cena de Estranhos no Paraíso - I Put Spell on You, Screaming Jay Hawkins


Atualmente Jim Jarmusch toca guitarra e trabalha em parceria com o alaudísta holandês Jozef van Wissem. Juntos gravaram 'Concerning the Entrance Into Eternity', construindo sonoridades a partir de poemas de San Juan de la Cruz. 


 *No Wave foi uma curta, mas influente cena de música underground, filmes, performances artísticas, vídeos e arte contemporânea que teve seu início durante a metade da década de 70 em Nova York. O termo rejeita os elementos comerciais do gênero músical então popular New Wave. (Wikipédia) 

 **Um clube localizado em Manhattan, as letras significam: "Country, Bluegrass, and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers" e, em uma tradução livre, significa "Country, Bluegrass e Blues e outras músicas para levantar gulosos (ou colocar os gordos pra suar)". Em 1973, o clube abriu lugar para o público Punk Rock. (Wikipédia)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Alice nas Cidades, 1974, Wim Wenders



Alice nas Cidades (Alice in den Städten)
★★★★★
Alemanha, 1974
Wim Wenders

Alice nas Cidades é o primeiro da trilogia de road movies realizado por Wim Wenders, seguido  por Movimento Falso (1975) e Reis da Estrada (1976), todos estrelados pelo ator Rüdiger Vogler. O filme é baseado nas viagens de Wenders às Américas e claramente influênciado pela cultura americana. Retrata a paisagem urbana e as diferentes interpretações apresentadas ao olhar humano. Não à toa Wim Wenders é fotógrafo, já que o tema essencial são lembranças metaforizadas por fotografias. As polaróides tiradas por Phil são representativas de uma experiência vazia em um mundo simbolizado pelo imediato. As imagens representam aquilo que preservamos em nossas mentes inconscientemente, as emoções vividas no instante em que observamos sob as lentes e apertamos o botão e não exatamente o que está sendo fotografado.


O repórter Philip Winter (Rüdiger Vogler) inicia o filme vagando pelos Estados Unidos em busca de histórias e impressões vivencidadas na viagem, porém Phil passa por um bloqueio e não consegue escrever nada. O personagem consegue apenas fazer imagens polaróides das paisagens, no entanto, ele passa por um desencontro consigo mesmo e perdido em seus próprios conflitos, fugindo de tudo que lhe parece fútil, do materialismo, do consumisto, da televisão e a massificação comercial.
São questões a serem discutidas até os dias de hoje. Como encontrar o verdadeiro sentido da vida em meio a tanta informação? Qual o significado da nossa existência em meio a tudo isso?


Após a decepção de não ter conseguido escrever suas experiências, Phil decide voltar para a Alemanha e surge um encontro inesperado com uma menina Alemã de 10 anos, que ocasiona ao personagem a tão buscada história, mesmo que ele só descubra isso no fim da viagem . Alice é um verdadeiro retrato da infância, age com espotâneidade em situações naturais, diferente de Phil, perdido em meio a seus pensamentos adultos.

Em dado momento Alice fotografa Winter, o reflexo dele batendo na foto ocasiona fusão pelo reflexo do rosto dela na foto dele simbolizando uma desconexão entre a realidade e a imagem. As identidades perdidas se tornam umas só, um rejeitado pelo mundo e ela pela mãe no mundo. Procurando um ponto de contato para Alice, um lugar onde possam se separar, sozinhos, eles passam a se entender e a se descobrir. A busca por um lugar onde a menina possa ficar é uma metáfora para Philip procurar um sentido em sua vida.  Por fim, Phil acaba descobrindo que não odeia realmente a cultura norte-americana que não trouxe inspiração. Ao deixar a menina sob cuidados da polícia, o personagem vai a um show do Chuck Berry e acaba se divertindo em meio a cultura americana.

Alice faz com que Phil se encontre, ela o proporciona uma interação com a rejeitada realidade.
Quando Phil e Alice encontram a mesma casa da foto, que foi da suposta avó de Alice, concretiza-se uma junção entre realidade e imaginário, desmentindo o que Phil afirma no início do filme "as imagens nunca mostram o que se viu', ainda que a casa já não seja mais da avó, a casa materialmente continua a mesma.
Encontrei com Alice nas Cidades a minha própria caligrafia no cinema. Muito mais tarde, tornou-se-me claro que, nestes anos que passaram, o meu trabalho oscilara entre dois pólos: os filmes a preto e branco sobre temas pessoais e os filmes a cores, adaptações de obras literárias.
Wim Wenders

Alice nas Cidades e Lua de Papel:
O filme me remeteu ao belíssimo 'Paper Moon', Lua de Papel de Peter Bogdanovich. O uso do preto e branco, a relação 'pai e filho', a rejeição, a estrada, duas crianças desempenhando um belíssimo e intenso papel. Deliciosas coincidências podem ser notadas em diversas cenas, como quando estão na lanchonete e em ambos os filmes, a criança afronta o adulto, mostrando-se mais madura perante as situações.



Lua de Papel, 1973
 Alice nas Cidades, 1974


Outra cena que remete claramente ao 'Lua de Papel' é a da cabine fotográfica. Embora em Lua de Papel o 'pai' não tire a foto junto com filha, observa a foto com a mesma melancolia que Phil.

Lua de Papel, 1973


 Alice nas Cidades, 1974

sábado, 29 de dezembro de 2012

Um Rei em Nova York, 1957, Charles Chaplin

Um Rei em Nova York (A King in New York) -
★★★★★
Reino Unido, 1957
Charles Chaplin

O longa foi o primeiro filme realizado após um longo período de exílio na Europa para fugir do encalço político sofrido nos Estados Unidos, onde o ator e diretor trabalhou durante quatro décadas. A perseguição política e ideológica insistia em acusá-lo de "agente do comunismo" e "artista subversivo", obrigando ele e a sua família a se distanciarem do país, isso bastou para que o ator-diretor fizesse uma crítica ácida, mas bem humorada aos EUA.
O filme mais rebelde de Chaplin trata-se de uma comédia farsesca sobre um monarca exilado por uma revolução, que chega aos EUA e descobre que todos seus bens foram furtados, mas além disso ele se descobre antiquado perante aos novos comportamentos da sociedade. Entretanto, em vez de adotar um discurso rabugento em relação ao presente, o filme prefere a provocação.
Em sua primeira saída pelo país, o rei Shahdov descobre o cinemascope e o rock and roll. Por meio dessa observação, Chaplin critica o culto às celebridades disseminado, à época, pela televisão. Shahdov, embora esteja pobre, ainda é tratado como rei e perseguido pela agente de publicidade e especialista em TV, Ann Key. A jovem angelical (Dawn Addams) seduz e defrauda o rei para que ele se submeta às inúmeras publicidades televisivas ao seu lado. Em nome de sua sobrevivência em um luxuoso hotel, o rei é convencido a aceitar o papel de garoto-propaganda se sujeitando até a uma cirurgia plástica para parecer mais jovem.
Na segunda parte o filme ganha um tom audacioso quando o rei encontra Rupet Macabee (Michael Chaplin), um menino de convicções esquerdistas que discursa um verdadeiro 'jato verbal comunista'. O garoto de 10 anos é o personagem sob o qual Chaplin apresenta toda sua malícia entalada na garganta, como a argumentação comunista e sua oposição ao marcatismo.
"Peça injuriosa e deprimente ao povo norte-americano? [...] Ao contrário, essa crítica em causa própria só engrandece seu cinema, suas artes, só dignificou o pensamento livre e a sua livre expressão, através do homem dos Estados Unidos.",
B.J. Duarte, Folha de S. Paulo, 9 de novembro de 1960.