quarta-feira, 6 de março de 2013

Quadrinhos - Genesis, 2009, Robert Crumb


Nome original: The Book of Genesis
Nome brasileiro: Gênesis por Robert Crumb

Nota: ★★★★★
Publicação: 2009

Licenciador e autor: Robert Crumb
Editora: Conrad
Categoria: Álbum de Luxo
Gênero: Alternativo
Número de páginas: 226
Formato: (21 x 28 cm)
Produto: Preto e branco/Capa dura

Gênesis se trata da reprodução fiel e ilustrada de cada palavra do texto original do primeiro livro da bíblia referente a criação do universo; os sete dias da criação; Adão e Eva; Noé, toda sua linhagem e tantas outras histórias antigas que há nele. Isso mesmo, os 50 primeiros capítulos do Gênesis foram adaptados impecavelmente para os quadrinhos por um dos maiores ícones do underground. Para isso, o mestre desenhista Robert Crumb no ápice da sua habilidade artística - como ele mesmo disse na introdução do livro - fez uma pesquisa profunda da obra que se inspirou à interpretar e que em alguns trechos se aventurou em pequenas interpretações próprias, mas apenas para deixar alguns termos bíblicos mais claros. Contando com a ajuda de amigos, profissionais e estudiosos, Crumb retratou com o máximo de fidelidade tanto o texto literário quanto a realidade da época. Foi um árduo estudo de quatro anos sobre a época, costumes e interpretação bíblica.
Uma obra bíblica ser interpretada e ilustrada por um indivíduo descrente de qualquer religião gerou um contraste, ocasionando uma certa polêmica na sociedade. Enquanto os religiosos fervorosos trucidam a obra, os fãs de quadrinhos e devotos de Robert Crumb se deleitaram com o trabalho. Independente à crítica religiosa, é uma obra magnífica e uma verdadeira relíquia no mundo dos quadrinhos. Diferente dos outros trabalhos de Crumb, não é caracterizado pela imoradilade, perversão, ironia e sarcasmo, mas esta obra, em particular, se destaca das outras pela intensa pesquisa realizada, que se faz perceptível durante a leitura.
Crumb disse que a ideia de representar Deus dessa forma gnóstica veio através de um “poderoso sonho” que teve no ano 2000 “no qual vi Deus e ele tinha essa aparência”

Em um trecho de entrevista concedida por Robert Crumb a Fernando Eichenberg em Paris e publicada pela revista “+ Soma” (disponível em http://www.maissoma.com/2010/2/26/robert-crumb), Crumb responde a seguinte questão:

Você se define como gnóstico?

Gnóstico é alguém que busca o conhecimento de Deus. Sou alguém em busca desse conhecimento. Não tenho a pretensão de dizer que possuo algum conhecimento, mas o procuro.uando você medita, tenta compreender a natureza da realidade, da nossa existência, da vida. Tenta unificar o todo da vida. Isso é muito gnóstico. Existe um texto gnóstico descoberto nos anos 1940, chamado “Nag Hammadi”, que é muito interessante. Fui bastante reprimido. A Igreja cristã e outras não gostavam de gnósticos – é algo muito vago, solto, sem doutrina suficiente. Os primeiros católicos se doutrinaram muito rapidamente. Queriam verdades absolutas, e todos que não concordavam com essas verdades eram excomungados. Por volta de 300 d.C., um bispo decidiu que todos que não reconhecessem Jesus como a encarnação de Deus não eram cristãos. Foi aí que começou o conflito em torno da heresia e dos hereges, de quem discordava da Igreja, milhões de pessoas perseguidas ao longo dos séculos. Ser gnóstico é não se limitar e não ter doutrinas. É diferente de ser agnóstico. Agnósticos duvidam da existência de Deus. Não são exatamente ateus, mas é um jeito de dizer “isso não é comigo”. Mas os gnósticos são interessados e praticam essa busca, na forma de meditação.

Você medita?

Sim, tento meditar todos os dias. Às vezes estou muito ocupado e não consigo, mas tento meditar todos os dias. É algo muito benéfico e útil.

O produto final elaborado pela editora Conrad ficou impecável, além da capa dura de luxo, o livro traz comentários do próprio autor sobre os capítulos ilustrados, com detalhes sobre a sua interpretação dos textos bíblicos e notas sobre a tradução para ajudar a esclarecer alguns trechos da tradução da obra original em inglês para o português.





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Livro - Entrevistas com Arquitetos, Hanno Rauterberg



Finalmente terminei a leitura desse livro que esteve guardado na minha estante durante tanto tempo. O livro interroga 19 dos mais célebres arquitetos com assuntos imprescindíveis a profissão, se tornando uma verdadeira fonte de inspiração para os aprendizes mortais -
não por acaso é o primeiro livro sobre arquitetura que leio após estar oficialmente graduada.
O alemão Hanno Rauterberg, renomado crítico de arquitetura, conversa com os ilustres arquitetos da atualidade sobre o estado da arquitetura hoje em dia, suas aspirações, as influências em sua obra e se seus projetos podem mudar o mundo. Entre os entrevistados estão nomes de diferentes movimentos e lugares no mundo, como por exemplo: Norman Foster, Cecul Balmond, Peter Eisenman, Frank gehry, Zaha Hadid, Daniel Libekind, Oscar Niemeyer, entre outros.
A Introdução do livro, intitulada: 'Modernismo Digital, porque a arquitetura é mais popular do que nunca' faz um apanhado de questões importantes que aparecem em muitas das entrevistas: 'Seus projetos acrescentam o quê? Ainda existem Vanguardas? E será que podem transformar o mundo com sua arquitetura? Elas são apenas grandes esculturas, algo apenas para os de nível educacional elevado? Ou o que os visionários sonhavam no início do século 20 é realmente possível? Será que os arquitetos podem sensibilizar um grande número de pessoas, renovar cidades e até mesmo se tornarem um símbolo de mudança?'. As questões não são técnicas ou estéticas, elas abrangem sobretudo a  questão social - Para que estamos construindo?
Raunterberg ousa algumas provocações aos arquitetos em alguns momentos, como quando diz para a iraniana Zaha Hadid: 'The Times chamou-a de a mais odiada arquiteta da Inglaterra'. Quando diz que os prédios de Zaha 'têm algo preescritivo, mesmo que pareçam flexíveis', a iraniana parece perder a calma quando diz 'Você está querendo discutir?... Você provavelmente não gosta da minha arquitetura.'

É
um livro interessante para compreendermos questões indispensáveis à profissão, além disso, sem perder o profissionalismo e fugir de assuntos relacionados à arquitetura, o autor trás o lado mais humano dos arquitetos. Entre as respostas mais surpreendentes temos a de Oscar Niemeyer que ao ser perguntado se ainda existia alguma coisa que desejasse na vida, diz:
"Eu gostaria de parar de falar de arquitetura. Eu preferia falar sobre literatura, mulheres e ciência. Se me fosse concedido um desejo, então que todo mundo fosse igualmente próspero, por favor. que todo mundo fosse feliz. Atualmente, o mundo me parece terrivelmente desajustado. Há insatisfação por toda parte; muitas pessoas não acreditam no futuro; o dinheiro reina supremo. Até memso por essa única razão, a arquitetura não pode ser a resposa. A arquitetura não é importante, o mundo é importante, e nós temos que mudá-lo. Esse é um mundo de merda."

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Documentário - Santiago, João Moreira Salles, 2007


Santiago (Santiago)
★★★★★
Brasil, 2007
João Moreira Sales


Em 1992, o cineasta João Moreira Salles, irmão de Walter Salles e filho do banqueiro e ex-ministro Walther Moreira Salles, empenhou-se em fazer um documentário sobre Santiago Badariotti Merlo, um mordomo, de origem italiana, dono de uma memória prodigiosa e vasta cultura que guardava nas lembranças o brilho das festas e recepções oferecidas pelo pai do realizador. Santiago trabalhou na casa da Gávea, a mansão de uma família muito rica e influente, onde o herdeiro dos Salles morou até os 20 anos e que hoje abriga o Instituto Moreira Salles, uma sede de referência para a fotografia e para a música no Rio de Janeiro.

O realizador percebeu a singularidade do homem já aposentado que viria a ser o personagem de seu filme em 1992. Santiago vive em um estreito apartamento do Leblon, no Rio de Janeiro, distante do esplendor dos luxuosos banquetes e grandes concertos que participara em um passado remoto. No seu humilde aposento leva uma vida solitária entre as 30 mil páginas que escreveu relatando os dramas e vidas de mais de 500 anos de nobrezas e dinastias de todo o mundo.

No mesmo ano, João Salles abandona o filme e só o retoma em 2005, entretanto, agora é ele quem se torna o protagonista. O filme é narrado em primeira pessoa, na voz do irmão, Fernando Moreira Salles e exibe todo o processo usado para fazer o filme em 1992. João explica detalhadamente como planejava construir o documentário apontando a câmera para Santiago e para a mansão onde o realizador cresceu. O documentarista descontruiu seu proprio documentário, revelando todos os cortes e desmascarando todos os seus mecanismos utilizados, sobretudo, como uma autocrítica do seu modo de conduzir o documentário década e meia atrás.

Em 2005, o resultado apresentado exprime a conscientização de um erro. Salles conseguiu retratar sua distância do antigo mordomo - ao que atribui suas inerentes posições de ex-patrão e ex-criado. O mordomo se apresenta como um personagem-objeto sempre ao fundo sendo constantemente manipulado no que dizer e como se posicionar. Toda essa errônea abordagem é explícita pelo diretor que usa o material completo que seria cortado na edição, os erros de Santiago durante as falas e  re-takes, enquanto a construção de seu material é questionada com a narração off feita pelo irmão, que indaga quanto à veracidade dos fatos que o documentário trás.

À vista disso, Santiago pouco se trata do ex-mordomo da família Salles. O documentarista trata do retrato de um erro, da consciência da perda de uma oportunidade única, já que não há mais como Salles reencontrar Santiago, que falecera logo depois das filmagens. Em 1992, quando teve a oportunidade, encarou-a com esteticismos e enquadramentos que quase perdiam Santiago ao fundo, não lhe dando a chance de expressar seus sentimentos e de ser ele mesmo na frente da câmera.

Santigo nunca foi o verdadeiro alvo da câmera, João Moreira Salles não procurava um personagem de seu passado para retratar, mas uma figura-chave que o guiasse para suas lembranças. O desejo de encontro com tudo que acontecera na casa da Gávea é buscado através do mordomo, um guia norteador que como ninguém, tinha vivo na memória um passado distante que jamais esquecera.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Memórias, 1980, Woody Allen


Memórias (Stardust Memories)
★★★★★
Reino Unido, 1980
Woody Allen
 
Criada a partir de 8½, a obra mais confessional de Woody Allen, Memórias desenvolve a história sobre um diretor à beira de um colapso nervoso, que em seus devaneios imagina variações para a sua complexa vida amorosa. É o filme mais maluco e imprevisível do cineasta, o que para alguns pode ser motivo para empurrar a obra ao segundo plano da filmografia de Woody Allen. O grande mestre das neuroses filmicas registra sob a fotografia admirável de Gordon Willis, um pouco de todas as preocupações do próprio diretor, lançando um olhar satírico e encarando o alto preço da fama.

A obra mais hermética de Allen não deixa espaço para simplificações habituais. Completamente desnorteada, incompleta e perturbada, esta obra menos conhecida do cineasta entretém e brinca com as suas origens, não dá atenção a narrativa cinematográfia, apresenta personagens que saem de cena sem mais nem menos e prova que a sétima arte não necessita de coerência, é um mundo de pura fantasia e ilusão imaginativa.


Não por mera coincidência em Memórias, Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com espanto a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Na vida real, decepcionado com a imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme dramático, o drama Interiores, Allen desenvolveu um roteiro ácido sobre a relação entre cineastas e jornalistas, assim como seu complexo relacionamento com o público. Um alienígena do espaço lhe diz "Nós gostamos dos seus filmes. Principalmente dos primeiros, os engraçados", e leva um tiro de uma fã perturbada. Sobre a noção de celebridade, Allen responde no livro de Eric Lax; 'Conversas com Woody Allen':
'Certo. Acontece uma porção de coisas estrangas quando você é uma celebridade. Quer dizerm não é que venha uma garota dizendo: "Me dá um autógrafo no meio seio esquerdo". Mas dizem: "Os russos estão prendendo pessoas em hospícios, você pode ajudar?". Ou: "Pode me ajudar com isto aqui?". E como eu já comentei com as pessoas, Memórias foi feito antes de matarem o John Lennon, porque eu senti que havia uma sensação ambivalente entre o público e a celebridade. O público adora os famosos, e por um lado é muito mais tolerante com os famosos do que eles merecem ou ganham. Por outro lado, o púlbico adora quando a celebridade é difamada, e se diverte dizendo: "Ah, você precisa ler o que fulano disse sobre esse filme. Crucificou o diretor". O púlbico tem um sentimento ambivalente, e era essa ambivalência que aquele cara maluco sentia pelo John Lennon, ou aquela pessoa louca sentia pela Jodie Foster. Eles mitificam a celebridade e são também perigosos.
 Memórias encanta desde a sequência inicial em um preto-e-branco pungente, claramente felliniana: um homem (Woody Allen) tenta  desesperadamente sair de um trem em movimento, impedido por um grupo de pessoas com fisionomias excêntricas. Partindo dessa cena, Allen brinca com as imagens e com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo melancólica e irônica. É impossível tentar evitar as comparações com a realidade vivida pelo diretor, assim como não rir com os diálogos mais inspirados de sua carreira. O filme harmoniza uma crítica ácida ao sistema a um humor dos mais inteligentes e engraçados da obra de Allen.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Brassaï, o 'Olho de Paris'

 1937 - Brassaï e seu gato
O fotógrafo, nascido na enigmárica Transilvânia e apelidado pelo escritor Henry Miller de "O Olho de Paris", tinha gosto pela boemia e encontrou o material para sua grande obra na noite parisiense. Esteve na companhia inatacável de notáveis artistas como Salvador Dali, de Picasso, Jean Cocteau e do próprio Henry Miller. Vivia pelas ruas e bares noturnos da cidade e se dedicava a fotografar os madrugadores de Paris, tais quais bêbados, prostitutas, sem-teto e malandros. Além disso, registrou a quietude das ruas, desfrutando com perícia dos jogos de claro-escuto que somente as últimas horas da noite ofereciam, muitas vezes, utilizando os faróis de seu próprio carro para iluminar as cenas. Brassaï saia com sua fiél companheira Voightlander de noite às sombrias ruas de uma Paris misteriosa para capturar tudo o que ela tinha para oferecer - a vida noturna, o nevoeiro, a chuva e todas as almas perdidas neste contexto 'noir'.

Embora Brassaï tenha um grande leque artístico, vou focar sua carreira como fotógrafo - período de sua vida em que posicionava-se em direção às belas artes. Sua relação com a câmera começou quando trabalhou como jornalista em Berlin e, posteriormente, em Paris. O fato de ter começado a frequentar as rodas de artistas e escritores, o inspirou a ver a vida enquadrada. Percebe-se a paixão de Brassai pelo movimento, pelas faces desavisadas e pelos passos errantes nas ruas da cidade.

O talento de Brassai o fez um dos mais conceituados fotógrafos da alta sociedade francesa e dos seus eventos, assim como de artistas e intelectuais que frequentavam a cidade. Em 1932 publicou Paris à noite, um belíssimo trabalho que garantiu a fama do fotógrafo e é considerado um clássico, não apenas no que diz respeito à delicada técnica de se fotografar na penumbra da noite, mas como exemplo de ensaio primorosamente executado. Entre fevereiro e março deste ano, a Aliança Francesa levou a algumas capitais do Brasil uma exposição com imagens dessa célebre série. Segundo Yann Lorvo, diretor geral da instituição no país, “Brassaï soube com gênio e poesia captar e desvendar o segredo da luz e da noite. Essa visita em preto e branco nos bastidores da Cidade Luz se dá numa hora em que ‘todos os gatos são pardos’ e o tempo está suspenso para que os segredos e as paixões proibidas possam se expressar, numa versão parisiense inédita da Comédia Humana”.




Matisse

1944 - Picasso e Jean Marais posando como modelo


Biografia

George Brassaï, heterônimo de Gyula Halász, percorreu por todas possibilidades culturais do séc. XX, foi fotógrafo, escultor e cineasta, mas foi como fotógrafo que adentrou na galeria dos artistas mais influentes dá história. Nasciso em 1899, em Brassó, Transilvânia, região romena então sob domíno da Hungria, o fotógrafo só veio a ter seu nome artístico em 1932, quando já residia em Paris, cidade que escolheu para viver. Em Budapeste, com 18 anos frequentou aulas de belas artes de Mattis Tetsch. Ambicioso, partiu para Berlim e se diplomou na Academia de Belas Artes onde conheceu o húngaro Moholy-Nagy.
Em Paris, acabou se tornando jornalista para se manter, colaborando com um diário húngaro e revistas alemãs. Além de garantir sua sobrevivência realizando suas reportagens, Brassai frequentava a boêmia noturna, cercado de grandes artistas e entre eles o fotógrafo Eugène Atget, que influenciaria a parte final de sua obra. Somente após quatro anos a sua chegada a Paris, Brassaï começou a flertar com a fotografia, inicialmente com o intuito de ilustrar seus textos e desde então foi se interessando pela arte de fotografar. Inicialmente fotografava objetos em um darkroom que improvisou no quarto de hotel onde vivia. As primeiras fotograficas de Brassaï foram tiradas com uma máquina emprestada e, pouco depois, o fotógrafo adquiriu a sua famosa Voightlander, a câmera fotográfica que o acompanharia por muitos anos.
 
Fascinado pela vida noturna, registrou o seu encanto pela sociedade que frequentava os bares e as ruas parisienses, representou através de suas fotos os costumes de uma Paris em declínio e seus personagens como prostitutas, guardas noturnos, bêbados, namorados, que resultou no trabalho 'A Paris Secreta dos anos 30' e no livro 'Paris de Nuit'. Em 1932 Brassaï fotografou os grafitti nas paredes de Paris, um trabalho fortemente divulgado na revista surrealista Minotaure.
Em 1937 começou a trabalhar na revista Haper's Bazaar, que publicava seus ensaios sobre artistas e personagens. Outro aspecto interessante na vida do fotógrafo foi a sua amizade com o pintor Pablo Picasso, da qual resultou o livro Conversations avec Picaso (1965). Recebeu um convite para fotografar suas esculturas e se envolveu com o movimento surrealista ao colaborar com o jornal Minotaure, com fotografias de grafites em muros - 'A Linguagem dos Muros'. Após a morte de Carmel Snow, editor da revista Harper's Bazaar, em 1962, Brassaï abandona a fotografia para se dedicar à impressão e edição do seu trabalho.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cinema, Fotografia e Susan Sotang



Coincidentemente estou iniciando a leitura de 'Sobre Fotografia' justamente no dia do fotógrafo. O livro de Susan Sotang, renomada escritora, critica de arte e ativista dos Estados Unidos, lançado originalmente em 1977, excede o campo da fotografia, dialoga com a filosofia e a sociologia, com a estética e a história da arte.
O que me chamou a atenção no primeiro capítulo intitulado 'Na Caverna de Platão'  - além, é claro, das definições impecáveis do que a significa fotografar, das diferentes significâncias da fotografia como um registro histórico cultural, político e social - são as citações de filmes correlacionados a fotografia e a ação de fotografar. Esbocei uma lista com todos os filmes citados no primeiro capítulo:

1963 - Les Carabiniers, pt Tempo de Guerra de Godard
Dois lúpen-camponeses preguiçosos são induzidos a ingressar no Exército do rei mediante a promessa de que poderão saquear, estuprar, matar ou fazer o que bem entenderem com os inimigos, e ficar ricos. Mas a mala com o butim que Michel-ange e Ulysse trazem, como triunfo, ´para casa, anos depois, para suas esposas, contém apenas centenas de cartões-postais de monumentos, de lojas de departamentos, de mamíferos, de maravilhas da natureza, de meios de transporte, de obras de arte e de outros tesouros catalogados de todo o mundo. O chiste de Godard parodia, nitidamente, a magia equívoca da imagem fotográfica. As fotos são, talvez,  os mais misteriosos objetos que compõem e adensam o ambiente que identificamos como moderno.

1966 - Si j'avais Quatre Dromadaires, pt Se eu Tivesse Quatro Dromedários de Chris Maker
O filme faz uma reflexão argutamente orquestrada sobre fotos de todos os tipos e temas, sugere um modo mais sutil e mais rigoroso de enfeixar (e ampliar) fotos. Tanto em ordem como o tempo exato para olhar cada foto são impostos; e há um ganho em termos de legibilidade visual e impacto emocional. Mas fotos transcritas em um filme deixam de ser objetos colecionáveis, como ainda são quando oferecidas em livros.

1929 - Um Homem com uma Câmera de Dziga Viértov
O filme oferece a imagem ideal do fotógrafo como alguém em perpétuo movimento, alguém que se desloca em um panorama de eventos díspares com tamanha agilidade e rapidez que qualquer intervenção está fora de questão.

1954 - Janela Indiscreta de Hitchcock
Janela Indiscreta oferece a imagem complementar: o fotórgafo representado por James Stewart tem uma relação intensificada com determinado evento, por meio de sua câmera, justamente porque está com a perna quebrada e confinado a uma cadeira de rodas, estar temporariamente imobilizado o impede de agir sobre aquilo que vê e torna ainda mais importante tirar fotos. Mesmo que incompatível com a intervenção, num sentido físico, usar uma câmera é ainda uma forma de participação

 1966 - Blow Up, pt Depois Daquele Beijo de Antonionni
Antonionni leva m fotógrafo de moda a rondar convulsivamente em torno do corpo de Veruchca, com a câmera a clicar. Maldade, de fato! Com efeito, usar uma câmera não é um modo muito bom de aproximar-se sexualmente de alguém.

1960 - A Tortura do Medo de Michael Powell
Existe uma fantasia sexual muito mais forte no extraordinário filme de Michael Powell, que não trata de um voyeur, como o título sugere, mas de um psicopata que mata mulheres com uma arma oculta em sua câmera, enquanto as fotografa. Ele não encosta nenhuma vez em seus temas.. Não deseja seus corpos; quer a presença delas na forma de imagem e filme -  as imagens que as mostram experimentando a própria morte - , que ele projeta numa tela, em casa, para seus prazer solitário. O filme supõe uma ligação entre importência e agressão, entre o olhar profissionalizado e a crueldade, que aponta para a fantasia central, ligada à câmera. A câmera como falo é, no máximo, uma débil variante da metáfora inevitável que todos empregam de modo desinibido. Por mais que seja nebulosa nossa coinciência dessa fantasia, ela é mencionada sem sutiliza toda vez que falamos em "carregar" e "mirar" a câmera, em "disparar" a foto.



 Leitura: Sobre Fotografia, Susan Sotang


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Cinema e Música - Jim Jarmusch


Precisei assistir poucos filmes do diretor independente norte-americano Jim Jarmush para perceber  que o cineasta tem alguma relação com o som. Descobri que além disso, é uma das cabeças pensantes do cinema mais ligadas com a música. O cineasta mergulhou na cena musical underground de Nova York no começo da década de 80. Jarmusch tocou teclado e cantou em uma banda baseada no *No Wave chamada The Del-Byzanteens e se apresentou em lugares como o **CBGB & OMFUG e o Mudd Club. Foi a estética dessa cena que o ajudou a dar o ponto de partida para fazer filmes, como ele mesmo recorda: “The aesthetics of that scene really gave me the courage to make films" [...] “It was not about virtuosity. It was about expression.”

Ao longo dos anos, Jarmusch preferiu escalar para seus filmes rostos inusitados de músicos como, Joe Strummer, Tom Waits, John Lurie, Iggy Pop, todos com algo em comum: todos estiveram contra a pressão comercial da cultura popular mainstream. A sequência de abertura do filme 'Down by Law', br: 'Vencidos pela Lei'  de 1986 se passa ao som da música de Tom Waits “Jockey Full of Bourbon". Não é preciso assistir o filme inteiro para notar que a música se encaixa perfeitamente na atmosfera da história:

Tom Waits - Jockey Full of Bourbon
"Waits’s songs tell of fractured romances set in an underworld of drifters, pimps, and prostitutes–to a large extent the milieu of the film. And both Jarmusch’s film and Waits’s songs recycle retro idioms. The visual style of Down by Law draws from a number of 1940s and 1950s studio genres, while Waits’s songs are replete with pastiches of polka, waltz, classic blues, and Caribbean rhythms." Jim Jarmusch.
Outro filme com parentesco musical é o 'Mystery Train', 'Trem Mistério' em português, de 1986. A música-tema é a que dá nome ao próprio título do filme, clássico do rei Elvis Presley. A trama, que tem a cidade de Memphis como pano de fundo, conta com Joe Strummer e os bluesman Screamin Jay Hawkins e Rufus Thomas no elenco.
Em 1995  Jarmusch escalou  Neil Young para compor e executar a trilha sonora do faroeste rodado em preto e branco 'Dead Man'. O músico, que já participou de outras produções com Jarmush, gravou uma melodia de forma minimalista e improvisada em um grande armazém em San Francisco enquanto assistia cortes do filme. Young tocou todos os instrumentos; violão, guitarra, orgão e piano. Em 1997 Jarmush produziu 'Year of The Horse' uma exelente referência musical sobre o músico canadense com entrevistas, imagens de bastidores das décadas de 70 e 80, além de cenas da turnê de 1996 do roqueiro.


Neil Young - Dead Man

As trilhas sonoras das produções de Jarmusch resultam de uma conexão entre todos os elementos que estruturam um filme,  conectando-se ao roteiro, a trama e até mesmo aos atores e ao diretor, pessoas comuns que amam a música.


A imagem acima é de 'Stranger Than Paradise', br: 'Estranhos no Paraíso' de 1984, onde a personagem é fã de Screaming Jay Hawkins e ouve 'I Put Spell on You' repetidamente. 

Cena de Estranhos no Paraíso - I Put Spell on You, Screaming Jay Hawkins


Atualmente Jim Jarmusch toca guitarra e trabalha em parceria com o alaudísta holandês Jozef van Wissem. Juntos gravaram 'Concerning the Entrance Into Eternity', construindo sonoridades a partir de poemas de San Juan de la Cruz. 


 *No Wave foi uma curta, mas influente cena de música underground, filmes, performances artísticas, vídeos e arte contemporânea que teve seu início durante a metade da década de 70 em Nova York. O termo rejeita os elementos comerciais do gênero músical então popular New Wave. (Wikipédia) 

 **Um clube localizado em Manhattan, as letras significam: "Country, Bluegrass, and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers" e, em uma tradução livre, significa "Country, Bluegrass e Blues e outras músicas para levantar gulosos (ou colocar os gordos pra suar)". Em 1973, o clube abriu lugar para o público Punk Rock. (Wikipédia)